Ainda em linhas tortuosas e pontilhadas abrem-se os detalhes de um desabrochar...de uma metamorfose em série.
O Sol ainda é o mesmo amarelinho que entra pela janela redonda de uma quarto cheirando a amendoim e leite.São as paredes de anos, que guardam histórias de famílias unidas que a tempos e tempos lutavam por um amor démodé...são pedaços deixados para trás para que a história ficasse entranhada na massa corrida..nas infiltrações,no que ainda a sustenta.
Meu nome ainda é Sofia... meus livros ainda estão na prateleira cheios de poeira, meu cobertor azul com flores de veludo é o mesmo que eu trouxe de casa e meus sonhos estão ainda naquela caixinha enferrujada junto com toda a vida da minha mãe.Muita coisa ainda vive aqui...mas também muita coisa mudou..cresceu..morreu...nasceu.
Hoje posso ousar dizer que tenho um pedaço do céu ao meu dispor...e foi o que mais me atraiu a fazer desse canto 'o meu canto'...quando resolvi que meu espaço estava pequeno demais para caber tudo que se tinha acumulado durante esses três anos, dei um suspiro forte, daqueles que você dá quando vai fazer algo que vai mudar a sua vida, e me mudei.
Foi difícil colocar em caixas de papelão toda uma fase, que foi uma das melhores..foi difícil decidir o que deixar para trás e o que levar...lembrei de quando saí do sítio...eu estava com medo, mas confiante..não sabia o que vinha pela frente..eu era otimista...hoje tenho medo de olhar pela janela e mesmo assim escolhi um duplex com área aberta em cima, meio jardim suspenso,muito maltratado e sujo,na rua da estrela praia grande,o cenário mais lindo do mundo pra mim.E também lembrava a casa dos meus pais.
Uma grande parte de mim ficou la em casa, minhas lembranças de menina..minhas brincadeiras..as vezes quando chorava corria para aquele cobertor azul que tinha o cheiro da mamãe...eu trouxe comigo...e hoje ele tem outro cheiro.O de amendoim e leite.
Lembro que papai falava da casa que eles moravam quando nasci...ele dizia que tinha uma longa escada no meio da sala...com um tapete vermelho na porta com algumas manchinhas de tinta no chão...tinha uma janela pra varanda do vizinho mas que estava sempre rodeada de folhas secas presas nas frestas.Uma cozinha bem pequena que quase não cabia uma geladeira, meu berço ficava entre a sala e o quarto deles...mamãe sempre passava com muito cuidado perto do berço para eu não acordar...subia até o segundo andar que só tinha uma cadeira velha e uma porta que dava para uma varandinha com um gradeado velho pintado de branco, de lá se viam as casas da rua e um campo bem verdinho ao longe.Papai contava que ela sentava no chão da varandinha comigo nos braços para que eu pudesse sentir o vento...é por isso que lembro tanto do cheiro dela..dos cabelos ao vento..da respiração,ele contava que ali era o lugar mais perfeito do mundo,era como se a gente observasse o mundo todo, mas ninguém pudesse nos ver.A felicidade morou ali o tempo todo...era apertado mas não era o espaço que precisavámos...era de ar.
Mamãe foi diagnósticada "doença pulmonar crônica obstrutiva", não fazia ideia na época do que se tratava...papai decidiu vender tudo que tínhamos e nos mudamos para uma pequena fazenda ao sul de Porto Franco...no começo não tínhamos muita coisa...mas logo fomos começando a refazer a vida...mamãe cuidava daquelas terras como ninguém..plantava tudo que descobria..e papai daria o mundo todo á ela se pudesse...os ares ajudaram...mas não podiam fazer milagres.Mamãe se foi e lembro do enorme vazio que caiu sobre a casa e sobre os dias..papai resistiu a tudo...me fez lembrar dela para que nunca esquecesse que eu era a maior prova de que a vida da mamãe valeu a pena.
Nós dois fazíamos o que podíamos para preencher os dias...as horas...para que a dor pudesse ser suportável.Eu cresci...e nuca perdi nenhuma fase importante..fui criança...fui adolescente...conquistei coisas para levar a vida toda...o meu melhor amigo me ensinou a andar e meu deu um par de asas para ir atrás dos meus sonhos.Senti muito em ter que deixar aquela vida...mas entendi que se eu quisesse que acontecesse alguma coisa comigo eu tinha que me arriscar.Coloquei em uma caixa de biscoito as cartas da mamãe...o vidrinho de perfume vazio...uma luvinha de pano meio desbotada...e fotos antigas de dias em que eu nem existia e dias em que eu conheci as duas pessoas que eu amaria a minha vida toda e fui voar.
Enxuguei as lágrimas depois de lembrar dessa história da minha vida e entrar na minha nova casa...de estar feliz por encontrar um canto tão parecido quanto foi a casinha dos meus pais...de ver que esse lugar pequeno, abrigará uma nova fase dessa metamorfose que sou...minha vida ainda está toda em caixas...ontem jantei sentada no chão da sala, e me deitei para pensar por onde eu ia começar..foi ai que o celular tocou:
-Sô..
-Oi Ninna!
-Ai Sô...é a Duda.
-Que tem ela?
-Não ela...o pai dela.Faleceu.
(Silêncio)
-Onde ela tá Ninna?
-Com a mãe dela...falei para a Dot...mas você sabe como ela é...
-Tá.to indo pra lá.Beijo. te amo.
-Brigada Sô.te amo.
(Continua...)