-Que diabo tem aqui nessa caixa?
-Eiiii..não fala assim do telescópio...
-Telescópio?!?
-Meu pai fala que daqui da cidade a gente não consegue ver o céu direito por causa da poluição.
(riso de cantinho..)
-Coloca lá em cima...cuidado que essa escada é bem primitiva..não destrói nada..tudo aqui é patrimônio.
-Aquela 'teiona' de aranha ali também é patrimônio?
-Já tava aqui quando cheguei..então ai vai ficar.È patrimônio.
-Haha.Uau.a vista aqui é maneira.
Confesso que fiquei feliz em vê-lo ali parado olhando as janelas dos vizinhos sem nenhuma discrição...o Plínio sempre foi o tipo de cara que você vê entrar na sua vida e não quer mais que saia.Nossa amizade começou bem no começo da faculdade..li o nome dele na lista de inscritos do seletivo e ri um pouco...pelo nome dá pra pensar em um cara tipo executivo,cabelos grisalhos com paletó e pasta na mão...mas o Plínio apareceu sem graça e cavalheiro, ajudando a Sra.Boltivar a guardar nas caixas o famoso tamborzinho..desengonçado mas orgulhoso e de ombros largos..na primeira oficina confesso que fiquei surpresa ao ouvi-lo cantar em umas das apresentações do teatro...o Plínio era especial e levei tempo pra descobrir isso.
-Cê vai mandar alguém pintar aqui?
-Não.eu mesma vou.
-Legal.quer ajuda?
-Quero.
Eu lembro que onde eu olhava ele estava lá...nas discurssões e nas mais furadas tentativas de fazer um curta...ele era meio nerd mas isso não impedia de ser um atleta e ter os sentimentos estampados no rosto e nas afeições.Ele sempre foi muito transparente.Era como se tentasse desesperadamente esconder as bochechas ruborizadas toda vez que estávamos perto..
-Para com isso Sofia.Você tá me assustando.Parece que consegue ver dentro de mim.
-È impossível não ver Plínio.
Durante todo nosso processo de construção da amizade passamos por situações em que nem com minhas melhores amigas eu vivi..o Plínio foi promovido de conhecido inteligente,para amigo quebra-galho e depois para melhor melhor amigo de verdade... o tempo em que precisei dele, ele estava lá.No começo me ignorava e fingia pouca preocupação.Mas depois era impossível não enxergar o quanto ele gostava de mim e eu dele...Nós nunca falamos sobre o que sentimos..não conversavámos sobre nós mesmos..era meio perda de tempo por que eu sempre fui indiferente..e ele...ele sempre esteve lá.Nós nunca dizíamos a verdade.O quanto eu amava te-lo na minha vida era algo que eu jamais ousei dizer.
-Faz quanto tempo que você não beija alguém?
-Algum tempo.
-Você não sente falta?
-Sinto..mas o que realmente me preocupa não é a sexta-feira a noite..e sim o sábado de manhã..a tarde..eu não quero alguém pra passar um tempo...quero alguém pra viver comigo.
Ele tinha uma namorada meio louca que implicava com o cabelo dele e com as aulas de violão..o Plínio sempre foi muito bem cantando..dava show e todo mundo curtia o som que ele fazia..e mesmo depois de ele pintar o cabelo umas cem vezes ela deixou o Plínio por um cara careca e que fazia travesseiros.Foi meio estranho ver aquele cara de 1,90 com um uniforme de futebol chorando na minha calçada..achei estranho..mas muito fofo.
Acho que ele sempre foi um amor de reserva na minha vida e nunca me senti confortável por coloca-lo nessa posição..eu nunca disse o que sentia...mentira.
-Acho que eu amo você.
-Eu tenho certeza.
Não pude dizer mais nada desde esse dia..não enquanto ele estivesse na minha vida como alguém que me faz bem..mas não tem lugar fixo..ele merece mais que essa bagunça na minha casa..mais que essa indecisão na minha vida.E eu ainda não consigo nem saber por onde começar.
Foi ele que encontrou esse duplex..o pai dele tem uma empresa de imóveis e ele só teve que dar uma ''fuçada'' nos registros..e ele sabia exatamente o que eu precisava.O duplex foi uma surpresa..meio cara..mas foi uma surpresa linda..pena que tive que vender o chevete.
-O que você tanto escreve ai Sofia?
-Nada sobre você..pode ter certeza.
-Vo pedir pizza...
-Você paga.
(Continua..)
