''Me exponho para que nada se imponha dentro de mim''


21 de setembro de 2011

Capítulo 2 "Perto da Morte"

A morte nunca foi algo com o que eu soubesse lidar.

Os maiores encontros que tive com ela, ela levou a minha mãe e a luna.A luna morreu ano passado,de uma forma que até hoje não consigo entender...ela nunca foi de amizades com gatos e depois de uma briga meio feia com um gatinho intruso que andava pelo prédio...ela foi ficando doente...teve um derrame...e morreu.Ela foi minha melhor companhia nesses anos longe de casa, meu pai me deu a luna e nunca consegui me separar dela..trouxe ela comigo assim como todas as lembranças do meu berço..chegar em casa e poder saber que aqueles olhinhos brilhantes eram os únicos que me esperavam, me deixaram tão presa a ela que a única referêcia de família que me deixava afagada de uma certa forma, era sentir o cheirinho dela nos meus braços.Perdi uma confidente...uma protetora..a amiga mais leal e dedicada que se teve nóticia...chorei dias e noites e não contive a dor por nenhum motivo..era como se ela merecesse meu sofrimento..era como se eu lhe devesse o luto.
A verdade é que, ao perder a minha mãe eu entendi que perdermos as pessoas que mais amamos pra que de uma certa forma a gente entenda o quão importante ela é na nossa vida...pelo menos foi essa a explicação que a vovó me deu quando soube da mamãe..só queria que o preço desse entendimento não fosse tão alto.
A Duda perdeu o pai...mesmo ela não lidando muito bem com ele... sei que esse enorme vazio faz com que a gente entenda que antes algo o preenchia..e com o passar do tempo não preenche mais.
A vida tem esse jeito meio torto e doloroso de ensinar...a amar quem está perto da morte e amar quem já se foi...a perda nunca foi pra mim um ponto final...eu sempre soube ressurgir com novos sentimentos...mas nunca consegui me livrar dos antigos...minha vida anda meio bagunçada assim como minha cama..minha casa...meu coração...ando sendo consumida com lembranças de um passado empoeirado e triste...mas sei que da minha nova janela um futuro com novas cores e cenários me esperam.Por enquanto, me acostumar com a vida da Sofia por conta dela mesma..morei muito tempo com uma colega...e hoje estou aqui dona de um lugar só meu...só meu...meio solitário e velhinho...mas só meu.
Pensei em espalhar minhas fotos pela casa toda...pensei em pintar tudo sozinha...pensei em não fazer nada hoje...deixar tudo pra amanhã.
Olhando em volta ainda tenho ímpetos de voltar pra casa e pedir abrigo pra quem tanto me faz falta...vontade de sentir outra vez o cheiro dos lençóis limpos...do canto dos passarinhos logo pela manhã...e o cheirinho de terra molhada que todo mundo tanto fala, mas que ninguém entenderia o quanto isso é importante pra mim.Vontade ser protegida...de olhar pela janela e ver o campo verde...o cenário mais lindo pra uma bela foto...fazer quadros com a mão e escrever sem parar para minhas amigas contando o quanto é bom tomar leitinho quente tirado na hora...tenho sim vontade de deixar a realidade e voltar para o conto de fadas que idealizei...mas agora..prefiro sem magia pagar contas e tentar concertar uma instalação de água.
Que bom que tenho onde ficar....que bom que já religuei a água...e comprei uma cortina...só falta agora os olhinhos brilhantes da luna me esperando voltar.
Preciso comprar manteiga e uma xícara...

" Eis o que torna o teu amor mais forte:
  Amar quem está tão próximo da morte."
           (Skakespeare)