''Me exponho para que nada se imponha dentro de mim''


19 de janeiro de 2012

De Drummond

Não há como saber o que se passa se você não abre os olhos..como queria poder fechar os olhos pra toda essa claridade e invadi-la com uma mortifera escuridão,dessas que você prefere fechar os olhos do que enxergar um um vulto clarão..só sei que ando meio flutuante...meio soluvél...facilmente.

"Cantiga de amor sem eira

nem beira,

vira o mundo de cabeça

para baixo,

suspende a saia das mulheres,

tira os óculos dos homens,

o amor, seja como for,

é o amor.


Meu bem, não chores,

hoje tem filme de Carlito.


O amor bate na porta

o amor bate na aorta,

fui abrir e me constipei.

Cardíaco e melancólico,

o amor ronca na horta

entre pés de laranjeira

entre uvas meio verdes

e desejos já maduros.

Entre uvas meio verdes,

meu amor, não te atormentes.

Certos ácidos adoçam

a boca murcha dos velhos

e quando os dentes não mordem

e quando os braços não prendem

o amor faz uma cócega

o amor desenha uma curva

propõe uma geometria.


Amor é bicho instruído.


Olha: o amor pulou o muro

o amor subiu na árvore

em tempo de se estrepar.

Pronto, o amor se estrepou.

Daqui estou vendo o sangue

que corre do corpo andrógino.

Essa ferida, meu bem,

às vezes não sara nunca

às vezes sara amanhã.


Daqui estou vendo o amor

irritado, desapontado,

mas também vejo outras coisas:

vejo beijos que se beijam

ouço mãos que se conversam

e que viajam sem mapa.

Vejo muitas outras coisas

que não ouso compreender...''

(Carlos Drummond de Andrade)

(Sofia..volta pra casa..eu faço chocolate quente só pra você.)